Na quarta-feira, Carlos Cardoso publicou um ótimo texto sobre estilo em blogs e a contrapartida na velha mídia, “Se eu pudesse falar a língua dos blogs“. Não tenho o que tirar, talvez poria mais alguns detalhes, mas isso não vem ao caso agora. O que me chamou a atenção no artigo foi a frase:
“Redator de site de jornal não linka por ordem superior E por falta de hábito”.
Existe uma certa paranóia entre os blogueiros (e aqui não vai nada especificamente sobre Cardoso, ele só serviu de inspiração e é um dos poucos com os pés no chão) com relação às redações dos jornais impressos e suas versões eletrônicas. A falta de link e de linguagem apropriada para internet, dois dos principais defeitos do jornalismo analógico quando transportado para um meio digital e naturalmente multimídia como é a internet, nascem de problemas muito mais primários do que uma ordem superior, que denota mais conhecimento de internet do que realmente existe, ou só falta de hábito, ou seja, apenas uma espécie de falha no treinamento.
Não conheço os padrões em toda a imprensa brasileira, mas apenas em alguns jornais do Nordeste e outros do Sudeste, incluindo alguns grandes, e esse preconceito blogueiro de que sites de jornais não linkam por não querer dar chance a blogs ou não têm o estilo de texto certo ou a conversação possível nos blogs por causa de uma orquestração pensada, uma espécie de conspiração entre pares, ou um defeito de formação dos jornalistas, não se demonstra verdadeiro em uma visita medianamente atenta a uma redação.
Primeiro, não existe redator de site de jornal na internet. Existem redadores em portais/sites que funcionam como empresas à parte do papel, aqueles com equipes próprias, vidas próprias, cobranças e metas específicas, centros de custo separados e chefias independentes, mas não existe esse personagem na conversão papel -> bits. Geralmente, há um jornalista responsável por catalogar, classificar e formatar centenas de matérias por dia, inserir fotos e verificar se cada matéria foi ou será realmente publicada no impresso. Essa pessoa está tão sobrecarregada que linkar é um luxo que transformaria um turno de sete horas em 14, reescrever as matérias para um estilo de texto mais internet é simplesmente impensável.
Muitos jornalistas sabem como fazer um link, muitas chefias nunca proibiram links para blogs ou outros sites (talvez apenas para os concorrentes diretos), nem mesmo há perseguição àqueles que copiam e colam íntegras. Há, sim, uma certa permissividade entre velha mídia e nova mídia. Quantas vezes houve processo de agências de notícias, veículos, fotógrafos profissionais ou jornalistas contra blogueiros que copiaram fotos ou matérias inteiras? Que eu saiba, nenhuma, por quê?
As redações estão preocupadas com o excesso de horas extras, os repórteres estão se equilibrando entre três, quatro pautas diárias que só podem ser realizadas com um bom punhado de ligações telefônicas, horas entre arquivos de jornal velho ou na própria internet em pesquisas de contextualização, saídas às vezes para os buracos mais terríveis de uma cidade, caça à fontes e assessores que freqüentemente se escondem, metendo o pé na lama, correndo atrás de bandido e, em casos extremos, morrendo. Simplesmente não há tempo para orquestrar conspirações.
Esse dia-a-dia, construído em anos de administrações baseadas em economia, cortes de custos, multiplicação da produção per capita é o verdadeiro desafio prático das redações da velhas mídias frente ao user made content. Como competir com uma multidão de pessoas produzindo entretenimento e informações - de melhor ou pior qualidade dependendo de quem produz, como é, também, nos veículos analógicos - gratuitas para quem usa, baratas para quem faz e, ao mesmo tempo, ter empregados sobrevivendo do próprio trabalho?
Hoje, em Fortaleza, o piso salarial de um jornalista está em torno de R$ 1,4 mil, em São Paulo é de R$ 1.575,00, é pouco, muito pouco, mas quantos blogueiros fazem isso por mês? 1%, 2%? Como uma empresa poderá sustentar uma estrutura de cem profissionais, cada um por um pouco mais de R$ 2,8 mil (os impostos e encargos dobram o custo de um empregado), com transporte, ligações telefônicas, insumos, material de escritório… e competir com quem ganha US$ 50 do Google e está feliz?
O buraco não está no estilo, no ego, na falta de links ou na paranóia dos blogueiros que acreditam que o mundo está contra eles, mas em toda uma nova economia que está por vir. O resto é armazém de secos e molhados e neguinho ou atirando no escuro ou em cachorro morto.







Add New Comment
Viewing 2 Comments
Thanks. Your comment is awaiting approval by a moderator.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Do you already have an account? Log in and claim this comment.
Add New Comment
Trackbacks