Eu sou membro da Legião e Cony é meu salvador

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Carlos Heitor Cony, a quem muito respeito desde a época de vestibular quando o lia seguido de Otto Lara Resende, não é unânime, não é ainda como foi Paulo Autran, como é Fernanda Montenegro, como foram seus pares Nelson Rodrigues (à revelia) e o próprio Otto (também à revelia, mas ora, são coisas da idade). Talvez ele não queira ser unânime, ou não mereça, ou falta-lhe a morte.

Cony é contra a Legião de chatos, da qual faço parte, portanto a defesa de agora. Trechos da coluna do dia 18:

Quando Cristo expulsou Satanás de um endemoniado, perguntou-lhe o nome. Satanás respondeu: “Meu nome é Legião”. Os chatos de agora são também uma legião, a internet ampliou-os em número, freqüência e virulência.

Todos os meus amigos -e até mesmo alguns que não chegam a isso - reclamam das mensagens, das sugestões e, sobretudo, das denúncias do interesse de cada um. Do prefeito que não asfaltou a rua, do emprego que alguém não obteve, do concurso que o reprovou.

O e-mail, que deu oportunidade à comunicação de forma surpreendente, se, de um lado, está servindo na busca e na troca de informações para aproximar pessoas, de outro, está produzindo chatos em massa, em escala industrial.

Desocupados, embriões de gênios que desejariam ser comentaristas de política, de esportes, de economia e de cultura, ditando regras disso ou daquilo, encontraram afinal a tribuna, o miniespaço que buscavam e não conseguiam.

Entram na internet com tempo e garra suficientes para tentar criar um mundo à sua imagem e semelhança, mundo que felizmente não existe, a não ser na cabeça desses novos Petrônios informatizados.

Ele, o Petrônio da Folha, o homem que chegou lá e que não é um chato, deve ter a opinião elevada à categoria de mandamento, ele tem licença especial que os muitos mortais, aqueles que não conseguiram o miniespaço, não têm ou jamais deveriam ter.

Não reclamemos de nossas ruas precárias, de nossa substancial falta de empregos, que fiquemos nas nossas fofocas de vizinhança, na pequenez da vida íntima da morena solteira do 101, no câncer do velho do 404.

Nossa política é para estadistas e quem somos para discutí-la? O que nos dá o direito de olhar para nossa economia e cultura quando deveríamos atentar mais para as novelas e os brothers das noites de terça? Por que não deixar para os Sócrates e Aristóteles, irmãos em gênio e iluminação de Heitor, nosso próprio príncipe de Tróia, que nos guiem para fora da escuridão?

Eu, parte da Legião, devo aceitar Cony como meu Cristo ou devo me regozijar pelo mundo não ter sido moldado à imagem e semelhança de Cony?

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